O seu desejo pode lhe salvar ou lhe condenar

Por Abelardo Lemos*

Pesquisa bem recente mostra que as pessoas que passam mais de duas horas por dia usando as redes sociais têm maior tendência à solidão. Sentem-se solitárias.

Imagine você a seguinte situação: uma pessoa tem um sonho de conhecer determinado local no mundo e não está conseguindo realizar esse sonho, por alguma razão. Acessa a rede e vê um conhecido curtindo, com aquele ar de felicidade, exatamente, o local sonhado. Surge, em decorrência, vários sentimentos (inveja, por exemplo), que levam a pessoa a determinados níveis de sofrimento.

Reagir a esses sentimentos, ou, simplesmente, ter esses sentimentos, depende muito do tipo de desejo que a pessoa costuma ter, que a leva a ir navegando, enfrentando ou se defendendo do mundo, ligado nas próprias realizações ou sendo atingida pela vida do outro, pelo que pensa ou faz o outro.

Há dois tipos de desejos. Os que vêm do mundo, do exterior, e os que vêm de dentro, da essência de cada um.

Os desejos do exterior (extrínsecos) são: dinheiro, fama e beleza física. Dinheiro, tudo que se relaciona ao ter; fama, tudo que traz a projeção, o aparecer; e a beleza física, a necessidade de se destacar pela aparência.

Facilmente, somos capazes de identificar pessoas, ao nosso redor ou mais distantes, que se voltam completamente para esses três desejos ou para dois ou um deles. Escolhem focar nesses desejos. Isso traz as seguintes consequências: primeira, a preocupação constante do tipo “será que vou ficar pobre?”, “será que vão me esquecer?”, “será que vou ficar feio?”.

Essa preocupação, esse medo de perder gera e alimenta uma ansiedade. É sabido que a ansiedade constante e duradoura leva a desdobramentos mais sérios, como a depressão, por exemplo.

A segunda consequência é a falta de preocupação com o outro. Não há espaço para servir ao outro, fazer algo pelo outro. Não pode haver a divisão do que tem. É a matemática direta: se dividir diminui, fica com menos.

A terceira é a preocupação exagerada com a própria imagem, a sustentação da pessoa é a imagem que passa para os outros. É uma questão de narcisismo, que é a antítese da autoestima elevada. Assim, a grande diferença entre uma pessoa de autoestima elevada e outra narcisista é que a primeira preocupa-se com o seu bem estar, com o seu crescimento; o foco é em si mesmo. A segunda preocupa-se com a sua imagem. O foco está no que o outro pensa da sua imagem. Se houver qualquer manifestação crítica sobre essa imagem é motivo de grande sofrimento.

Em resumo, a pessoa que se interessa pelos citados desejos externos (fama, dinheiro e beleza física) tem menos saúde e baixo desempenho social. Tende a sentir mais a solidão de que trata a pesquisa de que falamos.

E os desejos internos (intrínsecos)? São também três: crescer como pessoa, ter relacionamentos pessoais satisfatórios e servir à comunidade. Para mim, uma pessoa que busca o crescimento pessoal e se relaciona bem já está de bom tamanho. O terceiro desejo, então, servir à comunidade, é como se o ser humano se completasse e transbordasse para o ambiente, melhorando-o.

Os desejos internos não são passíveis de perda, de roubo, de estrago. Quem os escolhe não tem a preocupação, o medo da perda. Em consequência não tem ansiedade por isso. Se não tem ansiedade, não tem o perigo de cair numa consequente depressão. Esses desejos geram a matemática inversa: quanto mais divide mais cresce. Então, não há o medo de ajudar, de servir, de se doar ao outro.

Assim, em resumo, a pessoa que escolhe focar nos desejos internos e consegue algum avanço, tem maior saúde e maior desempenho social. Sente-se mais presente, mais acompanhado, mais feliz.

Qual o caminho para a mudança? Como posso fazer para mudar o foco? Qualquer um dos três desejos intrínsecos é o caminho. A pessoa pode escolher buscar crescer como pessoa, pode se dedicar a melhorar seus relacionamentos ou a servir à comunidade. O resultado será a melhoria da qualidade da sua existência.

É uma questão de escolha superar-se ou escravizar-se, salvar-se ou condenar-se através do desejo.

Nota: Artigo baseado numa ideia contida no livro “Por que fazemos o que fazemos?”, de Edward L. Deci.

* Abelardo Lemos é psicólogo e psicodramatista.

1 responder
  1. Cibele Cortez
    Cibele Cortez says:

    E como sabemos a ansiedade e a depressão são o mal do nosso século. O capitalismo, excesso de consumo, gera a busca pelo ter e não pelo ser.
    Obrigada por compartilhar seus conhecimentos, excelente texto!! Parabéns Aberlado!
    Abraço!
    Cibele Cortez

    Responder

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